
Quando chegámos ao campo era ainda de dia, o sol raiava e havia algumas nuvens no longínquo céu azul. Sentámo-nos junto a uma árvore e decidimos observá-las, usando a nossa imaginação para ver diversos animais e formas geométricas.
Estávamos na flor da idade, irresponsáveis, irreverentes, sem qualquer consciência sobre o que se passava à nossa volta ou no mundo. Não importava nada.
Eu era de facto muito jovem. Tinha cabelos pretos, compridos, até ao fundo das costas, constantemente desgrenhados por passar os dias deitada a observar o infinito do céu. Tinha pele clara, apenas rosada na face, os meus olhos estavam sempre cerrados, vermelhos, com as pupilas dilatadas devido ao consumo de droga excessivo. Lembro-me de ti, cabelo claro, quase loiro e muito encaracolado, sempre cheio de nós pelo mesmo motivo que eu. Os teus lábios eram grossos, bem desenhados e tomavam os meus com um agressivo e intenso carinho.
Vestíamos igual: roupas largas, sujas, coloridas, rasgadas… Tudo que causava impacto nos outros, nos bem vestidos e decentes. Riamos, riamos muito da maneira como nos olhavam: com desprezo e nojo.
Mas não nos importávamos com isso, fazíamos o que queríamos e onde queríamos, se sentíssemos vontade de nos amar, amávamo-nos mesmo ali, no chão, numa rua qualquer, numa casa abandonada, nas festas que frequentávamos. Vivíamos todos assim.
Para nós a vida resumia-se a pouco: sexo, drogas, música psicadélica, maneiras de arranjar dinheiro para comprar mais droga, nada mais. Não importava onde dormíamos, se tínhamos cama, esteira ou chão, não importava se comíamos ou não, a droga era o nosso alimento. Fumávamo-la, snifávamo-la, injectávamo-la, comíamo-la e bebíamo-la.
Éramos felizes assim, juntos, despreocupados, alucinados e sedentos de prazer carnal.
Estávamos apaixonados. É certo que não há nada mais triste do que ver um junckie, a não ser dois que se amam e fazem sexo desenfreadamente logo após a um flash.
Nessa tarde, íamos repetir essa mesma rotina. Estávamos já pedrados, com uma dose exorbitante de droga no corpo. Beijavas-me sem parar, enquanto isso seguravas as seringas, e preparavas as doses. Tu fazia-las correctamente, perfeitas, eras um verdadeiro profissional.
Eu ria sem parar, beijava-te também, beijos molhados e desejosos de percorrer o corpo de cada um. Sentaste-te mais perto de mim e deste-me a minha dose, fazíamo-lo sempre ao mesmo tempo para termos um flash em conjunto, era para nós tão importante como um orgasmo mútuo. Fizemos a contagem imensas vezes e acabávamos a rir novamente, completamente pedrados, até que a levámos ao fim e injectámos o nosso liquido milagroso.
Tive meu flash, comecei a despir-me, parecia louca. Tu não correspondeste, apenas te arqueaste mais, foi o maior flash que vi na vida. Não paravas. Gritei:
- Cabrão! Puseste mais no teu! – Bati-te sorrindo de inveja, mas sem te aleijar.
Continuavas no teu flash, até que de repente acalmaste. Gritei:
- Finalmente! Despe-te. – Louca varrida, alucinada, sem consciência…
No entanto, não te mexeste, ficaste cada vez mais calmo, até que te deitaste e não te mexeste mais. Foi a tua ultima dose, morreste ali, ao meu lado e eu nada fiz para te salvar. Caí, adormeci…
Era já de dia quando acordei, virei-me para o lado, vi-te de olhos fechados, sorri e beijei-te. Estavas frio, gelado. Assustei-me. Não me lembrava de nada. Não sabia o que se passava.
Pedi ajuda horas depois a um camponês que passou por mim à beira da estrada, trouxemos-te a braços até ao hospital a quilómetros de distância. Foi lá que me disseram:
- Lamentamos imenso, o seu amigo morreu de overdose há mais de doze horas. Tinha uma enorme dose de narcóticos no sangue e nos pulmões, encontramos também vestígios de cocaína que foi inalada.
Caí lentamente, desci pela parede até ao chão. Não podia ser. Porque foste tu e não eu?!
Mais valia! A minha vida sem ti não era nada, não fazia qualquer sentido. O que faria agora? De que me servia alucinar sozinha?! DE NADA! NADA DE NADA.
Saí do hospital a correr, chorei, corri mais, as lágrimas caiam sem cessar, continuei a correr. Corri horas seguidas até que parei finalmente. Levei-me a um nos nossos sítios preferidos. Sentei-me, as lágrimas foram-se.
Havia um rio junto dos meus pés, o rio onde tantas vezes me possuíste agressivamente. Irritei-me, senti a raiva a subir lentamente, quente até a minha cabeça. Percorreu todo o meu corpo.
Sem pensar duas vezes, agarrei na minha droga, deita-a à água, prometi a mim mesma acabar com esse vício que te roubou de mim. Prometi mudar o rumo da minha vida e lutar por algo melhor. Podia ter-me morto ali, mas não queria acabar como tu, queria provar que conseguia livrar-me disto tudo. Jurei procurar-te um dia no caminho para lá das portas do inferno.
Hoje, aqui estou eu, e tu continuas a assombrar os meus dias.
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